A disputa presidencial de 2026 ganhou um novo elemento de tensão com a divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg nesta quinta-feira (17). Em um eventual segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), o levantamento registra 47,2% para Flávio e 46,8% para Lula, uma diferença de apenas 0,4 ponto percentual, dentro da margem de erro de um ponto.
O levantamento ouviu 5.018 eleitores entre 11 e 16 de setembro, por meio de recrutamento digital aleatório. A pesquisa tem 95% de nível de confiança e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06221/2026.
O dado que chama atenção, porém, está além do empate numérico.
A mesma pesquisa aponta rejeição de 52% a Lula e de 50,2% a Flávio Bolsonaro.
Ou seja, os dois nomes que concentram praticamente todos os votos no cenário de segundo turno também apresentam índices de rejeição superiores à metade do eleitorado pesquisado.
Apenas 6% estão fora dos dois nomes
No confronto direto, brancos, nulos e entrevistados que não souberam responder somam 6%.
Esse grupo representa uma parcela relativamente pequena diante dos 94% que indicaram Lula ou Flávio no cenário testado.
A questão matemática passa a ser: o que aconteceria se uma parte desses eleitores mudasse de posição?
É justamente nesse ponto que pequenas movimentações podem produzir diferenças relevantes em uma disputa que, atualmente, está separada por menos de um ponto percentual.
É preciso, entretanto, fazer uma distinção: brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato. O resultado oficial considera apenas os votos válidos. Portanto, qualquer cálculo sobre uma eventual migração desses 6% é uma simulação hipotética, e não uma projeção do resultado eleitoral.
E se os eleitores rejeitados mudassem de posição?
A rejeição também merece uma leitura cuidadosa.
Os 52% que afirmam rejeitar Lula não formam necessariamente um bloco que votaria em Flávio. Da mesma forma, os 50,2% que rejeitam Flávio não necessariamente escolheriam Lula.
Um eleitor pode rejeitar um candidato isoladamente e ainda assim votar nele diante de uma determinada alternativa.
Por isso, o Conexão Arcos elaborou uma simulação matemática para dimensionar o efeito de uma eventual mudança de comportamento.
Considerando, hipoteticamente, que 5%, 10% ou 15% dos eleitores que rejeitam cada candidato passassem a votar no adversário, os fluxos seriam os seguintes:
| Cenário hipotético | Rejeição de Lula que migraria para Flávio | Rejeição de Flávio que migraria para Lula | Diferença líquida |
|---|---|---|---|
| 5% | 2,60 pontos | 2,51 pontos | 0,09 ponto |
| 10% | 5,20 pontos | 5,02 pontos | 0,18 ponto |
| 15% | 7,80 pontos | 7,53 pontos | 0,27 ponto |
A conta revela um aspecto importante: se a migração ocorrer na mesma proporção nos dois grupos, o impacto sobre a distância entre os candidatos é pequeno.
Isso acontece porque a diferença entre as rejeições de Lula e Flávio também é pequena: 1,8 ponto percentual.
O peso dos 6% que estão fora da disputa
Outra possibilidade é observar exclusivamente o grupo de 6% formado por brancos, nulos e indecisos no cenário pesquisado.
Em uma simulação matemática, se esse grupo permanecesse dividido igualmente, seriam acrescentados três pontos para cada candidato.
Mas se a distribuição fosse diferente, o efeito sobre o placar seria maior.
| Distribuição hipotética dos 6% | Lula | Flávio |
|---|---|---|
| 50% / 50% | +3,0 | +3,0 |
| 60% / 40% | +3,6 | +2,4 |
| 70% / 30% | +4,2 | +1,8 |
| 40% / 60% | +2,4 | +3,6 |
| 30% / 70% | +1,8 | +4,2 |
Por exemplo, se hipoteticamente 70% dos 6% fossem para Lula e 30% para Flávio, a fotografia de 46,8% a 47,2% passaria, matematicamente, para aproximadamente 51% a 49%.
No sentido inverso, uma distribuição de 30% para Lula e 70% para Flávio produziria aproximadamente 48,6% contra 51,4%.
Novamente, trata-se apenas de uma redistribuição matemática. Não há, na pesquisa, evidência suficiente para afirmar que os indecisos ou os eleitores que hoje declaram branco ou nulo migrariam nessa proporção para qualquer dos dois candidatos.
O paradoxo da rejeição
A fotografia produzida pela pesquisa é peculiar.
Lula aparece com 46,8% no segundo turno e rejeição de 52%.
Flávio aparece com 47,2% e rejeição de 50,2%.
Isso demonstra que intenção de voto e rejeição não são medidas inversas.
Um eleitor pode dizer que não votaria em determinado candidato “de jeito nenhum” em uma pergunta de rejeição e, diante de uma disputa binária, declarar voto nesse mesmo candidato.
Por isso, não é possível somar simplesmente intenção de voto e rejeição ou tratar os grupos como blocos independentes.
Uma disputa concentrada
O cenário também mostra como a disputa presidencial pode se tornar mais concentrada quando chega ao segundo turno.
No primeiro turno da mesma pesquisa, Lula aparece com 44,1%, enquanto Flávio registra 41,7%. Os demais candidatos aparecem em patamares bem menores.
No segundo turno, entretanto, os dois passam a concentrar 94% das intenções declaradas, deixando 6% entre branco, nulo e não sabe.
A fotografia não significa que esses números representem o resultado final da eleição. Pesquisas medem o comportamento declarado no momento em que as entrevistas são realizadas e estão sujeitas à margem de erro e às mudanças no cenário eleitoral.
Outros levantamentos recentes também apresentam diferenças entre os percentuais, embora o confronto entre Lula e Flávio apareça próximo em diferentes pesquisas.
O que os números permitem afirmar
Os dados disponíveis permitem identificar três pontos objetivos.
Primeiro: o confronto Lula x Flávio está tecnicamente empatado na pesquisa Atlas/Bloomberg, com 47,2% contra 46,8% e margem de erro de um ponto percentual.
Segundo: os dois candidatos apresentam rejeição acima de 50% no mesmo levantamento.
Terceiro: apenas 6% aparecem fora dos dois nomes no cenário de segundo turno, entre brancos, nulos e entrevistados que não souberam responder.
A partir daí, qualquer tentativa de determinar quem receberá esses votos ou como os eleitores que rejeitam os candidatos irão se comportar seria uma hipótese, não um dado da pesquisa.
Em uma eleição tão próxima, a diferença pode estar menos no tamanho bruto da rejeição de cada candidato e mais na capacidade de cada um de conquistar eleitores que hoje estão fora de sua escolha declarada.
A pesquisa mostra uma disputa apertada. A simulação mostra o tamanho que pequenas mudanças podem assumir. O comportamento real do eleitor, porém, só poderá ser conhecido à medida que novas pesquisas forem realizadas e, finalmente, pelas urnas.
