A trincheira do São Geraldo voltou ao centro do debate político de Arcos nesta segunda-feira (10), depois que o prefeito voltou a falar sobre o assunto durante o programa “Fala Prefeito”.
A declaração recoloca em discussão uma obra que há anos aparece no cenário político e urbanístico do município. E, desta vez, a VLI entra novamente no centro da conversa.
A questão, entretanto, vai muito além de saber quem deve assumir a responsabilidade pela solução.
O que a população quer saber é simples: por que uma intervenção discutida há tantos anos ainda não saiu do papel?
E a pergunta ganha força quando colocada ao lado de outros projetos e obras que também enfrentam demora, problemas de contratação, licitações, desistências ou necessidade de retomada.
A trincheira não nasceu no debate de hoje
A passagem sob a linha férrea na região do São Geraldo não é uma ideia recente.
Documentos públicos do município já registravam a previsão de uma travessia sob a ferrovia na Rua São Geraldo, ligando a região central ao Jardim Bela Vista.
Em 2021, a Prefeitura também já tratava da possibilidade de uma passagem inferior na região e das negociações envolvendo a malha ferroviária.
Agora, em 2026, o assunto volta ao programa oficial do prefeito.
A diferença é que, desta vez, a discussão coloca ainda mais claramente a VLI no tabuleiro.
Mas qual é a responsabilidade da VLI?
Aqui existe uma questão que precisa ser tratada com precisão.
A VLI possui responsabilidades relacionadas à operação ferroviária e às passagens de nível. Prefeitura e empresa também já estiveram envolvidas em tratativas e acordos relacionados à segurança e às intervenções na malha ferroviária de Arcos.
Isso, porém, não significa automaticamente que a VLI seja responsável sozinha pela construção da trincheira da São Geraldo.
E é exatamente aí que o debate precisa avançar.
Se a empresa será parte da solução, qual será sua responsabilidade?
A VLI deverá elaborar estudos?
Participará do projeto?
Financiará parte da intervenção?
Executará alguma etapa?
Qual será a participação financeira do município?
Existe um projeto executivo atualizado?
Existe orçamento?
Existe prazo?
A população precisa conhecer essas respostas.
Porque atribuir a responsabilidade a uma empresa sem apresentar claramente as obrigações de cada parte pode fazer com que uma questão de infraestrutura se transforme apenas em mais uma disputa política.
E quando o problema é chamado de “demora”?
A trincheira volta ao debate justamente quando outro tema também exige explicações: o saneamento da comunidade da Ilha.
O prefeito já afirmou que se trata de uma obra demorada.
Pode ser.
Uma obra de saneamento pode exigir projetos complexos, recursos, licenciamento, estudos técnicos e uma série de etapas antes da execução.
Mas existe uma diferença entre a obra ser tecnicamente demorada e o processo para contratar e iniciar a obra ser demorado.
São coisas diferentes.
E essa distinção também aparece em outros projetos de Arcos.
As 42 casas: quando a moradia também esbarra no processo
A construção das 42 casas populares é outro exemplo que merece ser colocado sobre a mesa.
O projeto habitacional passou por mudanças e dificuldades no processo de contratação. A Prefeitura precisou avançar com novo procedimento para viabilizar a execução das unidades.
Quando se fala em moradia popular, não se está falando apenas de concreto, tijolo e telhado.
Estamos falando de famílias que aguardam um endereço próprio.
Cada mês de atraso representa mais tempo de espera para quem deveria estar contando os dias para receber a chave da casa.
Por isso, a pergunta é inevitável:
quanto tempo foi consumido pela própria construção e quanto tempo foi consumido pelos procedimentos necessários para chegar até ela?
E a reforma das casas?
O mesmo questionamento aparece em outro projeto habitacional do município: a reforma de imóveis de famílias que precisam de melhorias para permanecer em suas próprias casas.
Nesse caso, a situação ganha um rosto e uma história que não podem ser esquecidos.
Dona Teresa, aos 80 anos, continua esperando
Dona Teresa tem 80 anos.
Sua casa foi demolida durante o processo de reforma e, desde então, ela permanece fora do imóvel enquanto aguarda uma solução.
O Conexão Arcos mostrou o caso no início deste mês.
É difícil olhar para uma situação dessas apenas como um problema administrativo.
Para quem está dentro da Prefeitura, pode existir um contrato, uma medição, uma empresa, uma etapa de obra ou um procedimento.
Para Dona Teresa, existe uma pergunta muito mais simples:
quando ela poderá voltar para casa?
O caso mostra por que a expressão “a obra demora” precisa ser acompanhada de explicações concretas.
Demora por quê?
O que aconteceu?
Quem deveria executar?
O contrato continua válido?
A empresa abandonou o serviço?
Foi necessária uma nova contratação?
Existe prazo para conclusão?
Essas respostas são mais importantes para a população do que qualquer justificativa genérica.
Trincheira, Ilha, casas: problemas diferentes, uma mesma cobrança
Não seria correto afirmar que a trincheira do São Geraldo, o saneamento da Ilha, a construção das 42 casas e a reforma das moradias possuem exatamente a mesma causa.
Não possuem.
São projetos diferentes, com fontes de recursos, contratos, responsabilidades e níveis de complexidade distintos.
Mas todos permitem fazer uma pergunta que interessa diretamente ao cidadão:
o que está impedindo cada projeto de chegar ao resultado prometido?
No caso da trincheira, é preciso esclarecer o papel da VLI e do município.
Na Ilha, é preciso informar em que etapa está o projeto de saneamento e o que ainda falta para a contratação e execução.
Nas 42 casas, é necessário acompanhar a contratação e o andamento efetivo da construção.
Nas reformas, é preciso saber quais imóveis foram atendidos, quais permanecem pendentes e o que aconteceu nos casos em que houve interrupção.
E, no caso de Dona Teresa, a prioridade deveria ser ainda mais evidente: resolver a situação de uma idosa que continua esperando por sua casa.
O problema é a obra ou o caminho até ela?
Talvez essa seja a principal pergunta que o debate provocado pelo “Fala Prefeito” desta segunda-feira deixa para Arcos.
Obras públicas realmente podem demorar.
Mas processos também podem demorar.
Licitações podem fracassar.
Empresas podem desistir.
Contratos podem ser encerrados.
Projetos podem precisar ser refeitos.
Recursos podem não estar disponíveis.
Tudo isso acontece na administração pública.
Mas existe uma obrigação que permanece: explicar à população o que aconteceu e qual é o próximo passo.
Não basta dizer que uma obra demora.
É preciso mostrar o cronograma.
Não basta dizer que depende da VLI.
É preciso apresentar a responsabilidade de cada parte.
Não basta anunciar uma moradia.
É preciso acompanhar a construção até a entrega das chaves.
E não basta demolir uma casa para reformá-la.
É preciso garantir que a pessoa tenha para onde voltar.
A trincheira voltou ao discurso. Agora precisa chegar ao chão
A fala do prefeito nesta segunda-feira recolocou a trincheira do São Geraldo no centro da agenda pública.
Isso é positivo.
Obras importantes precisam ser discutidas.
Mas, depois de tantos anos, a população tem o direito de cobrar mais do que uma nova discussão.
Quer saber quem será responsável, quanto será investido, qual é o projeto, de onde virá o dinheiro e quando a obra começa.
A mesma lógica vale para o saneamento da Ilha.
Vale para as 42 casas.
Vale para as reformas.
E vale especialmente para Dona Teresa.
Porque, no fim das contas, existe uma diferença enorme entre anunciar uma solução e entregar uma solução.
A trincheira já atravessou anos de debate.
As famílias das 42 casas continuam esperando.
O saneamento da Ilha ainda precisa superar suas etapas.
E Dona Teresa continua esperando pela própria casa.
Talvez a pergunta mais incômoda de Arcos hoje não seja por que as obras demoram.
Seja por que algumas delas parecem demorar tanto para começar, recomeçar ou terminar.
