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Política

R$ 75 mil em passaportes e camarotes: a contrapartida da Expo Arcos virou moeda política?

Vereadora Jaiane Soares questiona contrapartida recebida pelo Poder Executivo e cobra transparência sobre destino de ingressos e benefícios; denúncia levanta suspeita sobre possível utilização política das vantagens
Marcelo RibeiroPor Marcelo Ribeiro25 de agosto de 2026Atualizada:25 de agosto de 2026Nenhum comentário6 minutos de leitura
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Jaiane Soares cobra documentos sobre recursos destinados à ExpoArcos e questiona se o dinheiro público está retornando em benefícios para a população

A realização da ExpoArcos 2026 ganhou um novo capítulo após a vereadora Jaiane Soares levar à Câmara Municipal uma série de questionamentos sobre a utilização de recursos públicos relacionados ao evento.

Em discurso no Legislativo, a parlamentar afirmou ter encaminhado ofício ao Sindicato Rural de Arcos e à empresa responsável pela realização do evento, solicitando informações detalhadas sobre valores, instrumentos jurídicos utilizados, prestação de contas e eventual existência de contrapartidas exigidas pelo Poder Executivo.

Segundo a vereadora, o objetivo da solicitação é exercer a função fiscalizatória do mandato e verificar a legalidade, finalidade, economicidade, transparência e regularidade da utilização dos recursos públicos.

Prestação de contas ainda não foi concluída

A resposta apresentada pelo Sindicato Rural, segundo Jaiane, não esclareceu integralmente os questionamentos formulados.

Em documento encaminhado à parlamentar, o presidente da entidade informou que a prestação de contas referente aos recursos provenientes de subvenção ainda estava em fase de elaboração e organização. Também afirmou que o prazo para apresentação permanecia em curso e que, após a conclusão, a documentação seria encaminhada à Prefeitura de Arcos.

A entidade informou ainda que, depois da conclusão dos procedimentos, pretende encaminhar aos vereadores cópia do plano de trabalho, da prestação de contas e dos demais documentos pertinentes.

Para Jaiane, porém, a resposta não enfrentou questões centrais levantadas no ofício, especialmente aquelas relacionadas aos repasses e às possíveis contrapartidas.

“Não respondeu nada”, afirmou a vereadora durante seu pronunciamento, acrescentando que o presidente do Sindicato Rural já havia sido convidado anteriormente para prestar esclarecimentos na Câmara, mas não compareceu.

Vereadora questiona valores e benefícios relacionados ao evento

Durante a sessão, Jaiane também apresentou números que, segundo ela, recebeu por meio de mensagens relacionadas à comercialização de passaportes e pulseiras de camarote.

A parlamentar afirmou que teriam sido comercializados 100 passaportes por dia, considerando um primeiro lote de R$ 150, o que representaria R$ 15 mil. Também mencionou 50 pulseiras de camarote por dia, com valor de R$ 1.200 cada, chegando a R$ 60 mil.

Somados, os valores citados pela vereadora chegam a R$ 75 mil por dia, considerando os números que ela apresentou em plenário.

É importante destacar que esses números foram apresentados pela vereadora durante o pronunciamento e não representam, por si só, uma prestação de contas oficial do evento.

Jaiane também mencionou benefícios associados ao Poder Executivo, como passaportes e camarotes, e questionou quem teria efetivamente sido beneficiado com essas condições.

“Quem ganhou foi o sistema”, critica vereadora

A partir dos números apresentados, a vereadora ampliou a crítica e colocou em discussão o conceito de retorno social dos recursos públicos empregados na realização da ExpoArcos.

“Quem ganhou foi o sistema, como o sistema sempre ganha”, afirmou.

Na avaliação da parlamentar, os recursos públicos poderiam ter sido vinculados a mecanismos que gerassem benefícios diretos para famílias de baixa renda, entidades sociais e trabalhadores locais.

Ela citou, por exemplo, a possibilidade de disponibilização de brinquedos para crianças atendidas por entidades assistenciais, participação de comerciantes e barraqueiros locais e espaços destinados a organizações sociais para geração de renda.

“Isso seria recurso que voltaria para quem precisa deles, que é a nossa população”, argumentou.

Crítica vai além da festa

O discurso da vereadora não ficou restrito à ExpoArcos.

Jaiane apresentou imagens que, segundo ela, demonstrariam problemas estruturais em prédios e equipamentos públicos do município. Entre os locais citados estão o Lactar, o CAPS, o CRAS e unidades de saúde e educação.

A parlamentar questionou o contraste entre os investimentos relacionados à realização de grandes eventos e as condições que, segundo ela, ainda seriam encontradas em determinados equipamentos públicos.

“Não se comova, resolva”, afirmou ao cobrar providências para problemas que classificou como incompatíveis com a dignidade que deve ser oferecida à população.

Entre as situações mencionadas por Jaiane estão problemas em telhados, infiltrações, rachaduras, áreas interditadas e condições inadequadas de atendimento.

A vereadora também fez referência à falta de água enfrentada por uma comunidade e utilizou o episódio como exemplo daquilo que considera uma inversão de prioridades na administração pública.

“Eu não quero benefícios. Eu quero o certo”

Em um dos momentos mais contundentes do pronunciamento, Jaiane relatou ter recebido, após uma denúncia anterior, uma ligação na qual teria sido informada de que, por integrar a base política, poderia receber benefícios.

Segundo a vereadora, foi naquele momento que teria compreendido que sua atuação deveria estar direcionada à fiscalização, e não à obtenção de vantagens.

“Eu não quero benefícios. Eu quero o certo”, declarou.

A parlamentar também afirmou que não pretende utilizar sua atuação política para participar de palanques ou estabelecer relações baseadas em interesses individuais.

“Nunca vi uma exposição ser palanque político igual essa foi”

Ao retomar especificamente a ExpoArcos, Jaiane afirmou que, na sua avaliação, o evento teria ultrapassado a finalidade de uma exposição agropecuária e se transformado em espaço de promoção política.

“Eu nunca vi uma exposição ser palanque político igual essa foi”, disse.

A afirmação integra a avaliação política da vereadora sobre o evento e não constitui, por si só, comprovação de eventual irregularidade.

Jaiane também afirmou que pretende apresentar novamente uma emenda supressiva relacionada ao tema e declarou que continuará cobrando informações sobre a aplicação dos recursos.

A pergunta que fica: qual foi o retorno para a população?

O ponto central levantado pela vereadora é menos sobre a existência da ExpoArcos e mais sobre qual deve ser a prioridade quando recursos públicos são utilizados ou destinados a uma grande festa.

A discussão colocada na Câmara envolve transparência, prestação de contas, critérios para concessão de recursos e eventuais contrapartidas.

De um lado, há a realização de um evento de grande porte, com atrações, estrutura e movimentação econômica. De outro, a parlamentar aponta problemas que considera urgentes em equipamentos e serviços públicos.

“Vamos melhorar a qualidade do serviço público?”, questionou.

Para Jaiane, quem depende diretamente do poder público percebe de maneira diferente o que significa investimento.

“Quem acha que um grande show é um investimento não depende do serviço público. Porque, se dependesse, ia entender que a nossa gente perde demais”, afirmou ao encerrar o pronunciamento.

Fiscalização ainda depende de documentos

Apesar da contundência das críticas, parte das questões levantadas pela vereadora permanece dependente da apresentação e análise da documentação oficial.

A própria resposta do Sindicato Rural registra que a prestação de contas ainda não havia sido concluída e que os documentos seriam posteriormente encaminhados ao poder público concedente e aos vereadores.

Por isso, o debate sobre a ExpoArcos 2026 não termina com o pronunciamento de Jaiane Soares.

Ele agora entra na fase em que documentos, valores, contratos, planos de trabalho, prestações de contas e eventuais contrapartidas deverão permitir que a população conheça, com precisão, quanto dinheiro público foi destinado ao evento, por qual instrumento, para qual finalidade e quais benefícios efetivamente retornaram para a sociedade.

É justamente nessa etapa que a fiscalização deixa de ser apenas discurso político e passa a depender de documentos públicos, números e prestação de contas.

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