A transparência pública não existe apenas para divulgar números. Ela existe para permitir que o cidadão compreenda como o dinheiro público está sendo utilizado e possa questionar quando os dados despertam dúvidas legítimas.
Um levantamento realizado pelo Conexão Arcos, com base em documentos oficiais do Portal da Transparência da Câmara Municipal de Arcos, cruzou a folha de pagamento dos servidores referente a maio de 2026 com o relatório de diárias pagas entre janeiro e julho deste ano. Os dados revelam uma movimentação financeira que merece esclarecimentos por parte do Poder Legislativo.
Segundo os documentos oficiais, a Câmara empenhou R$ 62.550,00 em diárias nos primeiros sete meses de 2026, tendo pago efetivamente R$ 62.050,00 até a data da emissão do relatório.
Ao comparar esses valores com a remuneração mensal dos beneficiários, alguns casos chamam a atenção.
O motorista oficial da Câmara, Edison dos Santos, recebeu salário bruto de R$ 9.871,60 no mês de maio. No mesmo período analisado, acumulou R$ 17.450,00 em diárias, valor que corresponde a aproximadamente 177% de um salário mensal.
O Secretário-Geral Dyenderson Mateus Rodrigues recebeu salário bruto de R$ 6.901,41, enquanto suas diárias somaram R$ 9.950,00, superando em mais de 40% sua remuneração mensal.
Entre os vereadores, o presidente da Câmara, Hernane Honório Dias, recebeu R$ 4.400,00 em diárias. Também aparecem entre os maiores beneficiários Carlos David Borges (R$ 3.550,00), Leslie Mariana Silva Costa (R$ 3.500,00) e Alex Gracieres Ribeiro (R$ 2.700,00). Em contrapartida, João Paulo Ferreira recebeu apenas R$ 250,00 no mesmo período.
Um dado que também chama atenção é que o relatório de diárias referente ao período de janeiro a julho de 2026 não registra pagamentos de diárias aos vereadores Jaiane Fátima Soares, José Agenor da Silva, Kátia Mateus de Moura Sousa e Orlando Martins Ferreira. Enquanto alguns parlamentares realizaram diversas viagens custeadas com recursos públicos, outros não aparecem como beneficiários de diárias no mesmo período. O fato suscita uma pergunta legítima: quais critérios são utilizados pela Câmara para definir quem participa de viagens oficiais e quem permanece sem esse tipo de despesa? A resposta a esse questionamento é importante para que a população compreenda se existe uma política institucional de distribuição dessas atividades ou se as escolhas decorrem de necessidades específicas de cada mandato.
Os documentos também registram que diversas dessas despesas estão relacionadas a viagens para Belo Horizonte, Divinópolis, Lagoa da Prata e outros municípios para participação em cursos, reuniões e eventos institucionais.
Esses dados, por si só, não significam que exista qualquer irregularidade. O pagamento de diárias é previsto na legislação quando há deslocamento em serviço. Entretanto, exatamente por envolver dinheiro público, a sociedade tem o direito de conhecer não apenas o destino das viagens, mas também os resultados efetivamente alcançados.
Algumas perguntas surgem naturalmente:
- Quantas viagens foram realizadas para que alguns agentes públicos acumulassem valores tão expressivos em diárias?
- Todas essas viagens possuem relatórios circunstanciados, certificados de participação e comprovação das atividades desenvolvidas?
- Quais benefícios concretos retornaram para Arcos após cada deslocamento?
- Houve obtenção de recursos, celebração de convênios, capacitação comprovadamente aplicada ou melhoria dos serviços legislativos?
- Qual critério é utilizado para definir quais vereadores participam de cursos e viagens oficiais, considerando a diferença significativa entre os valores recebidos?
- As despesas com diárias são periodicamente avaliadas quanto à economicidade e à efetiva necessidade de cada deslocamento?
Outro aspecto que merece reflexão é o custo global dessas despesas. Os R$ 62.050,00 pagos em diárias entre janeiro e julho representam aproximadamente 28% de toda a folha bruta de pagamento de um mês da Câmara, que em maio totalizou R$ 221.458,71.
A divulgação desses números não tem como objetivo formular acusações ou emitir julgamentos antecipados. O propósito é exercer o papel fiscalizador da imprensa e incentivar o debate sobre a correta aplicação dos recursos públicos.
Diante das informações levantadas, o Conexão Arcos encaminhará toda a documentação obtida por meio do Portal da Transparência ao Ministério Público e aos demais órgãos de controle competentes, para que seja realizada uma análise técnica da regularidade dos pagamentos, da documentação comprobatória das viagens, da observância da legislação e da efetiva prestação de contas de cada deslocamento.
Se toda a documentação estiver regular e as viagens tiverem produzido os resultados esperados, isso será positivo para a própria Câmara Municipal e reforçará a confiança da população nas instituições públicas. Caso contrário, caberá aos órgãos competentes adotar as providências previstas em lei.
O dinheiro utilizado para custear diárias pertence ao cidadão. Por isso, mais do que publicar números em um portal de transparência, é essencial demonstrar de forma clara quais benefícios essas despesas trouxeram para a população de Arcos. A transparência plena não termina quando o pagamento é divulgado; ela se completa quando o interesse público é efetivamente comprovado.
Tentamos contato sem sucesso com o presidente da Câmara Municipal Hernane Queijinho, mas até o momento não houve resposta. A redação permanece a disposição para manifestação dos envolvidos na matéria.

