A saúde pública de Arcos recebeu, nos últimos anos, investimentos expressivos. Obras, equipamentos, contratação de profissionais e ampliação da capacidade cirúrgica mudaram parte da realidade da Santa Casa.
Mas uma pergunta continua sendo feita por pacientes e familiares: por que, mesmo depois de tantos investimentos, moradores ainda precisam deixar Arcos para realizar determinados procedimentos?
A pergunta não ignora os avanços. Pelo contrário: os números mostram que houve aumento na realização de cirurgias e ampliação da estrutura hospitalar. O que precisa ser discutido é se os resultados alcançados são compatíveis com o volume de recursos empregados e com a demanda da população.
Milhões investidos no Bloco Cirúrgico
Desde 2020, recursos públicos foram destinados diretamente à estrutura cirúrgica da Santa Casa.
Entre os valores identificados estão R$ 1.228.047,09 para a conclusão do Bloco Cirúrgico-Obstétrico, R$ 310 mil para o sistema de ar-condicionado, R$ 720 mil para a aquisição de vídeo laparoscópio e arco cirúrgico, além de R$ 1,2 milhão em adequações físicas relacionadas ao Bloco Cirúrgico e à UTI.
Em 2024, outros R$ 500 mil foram destinados à ampliação do Bloco Cirúrgico.
Somados, esses valores chegam a aproximadamente R$ 3,96 milhões em recursos diretamente identificáveis para estrutura, equipamentos e ampliação do setor cirúrgico.
Documentos municipais também mencionam aproximadamente R$ 2 milhões investidos pelo Governo de Minas na construção do bloco.
Portanto, somente nos recursos com relação direta à estrutura cirúrgica, o valor identificado ultrapassa R$ 5,9 milhões.
Mas existe um número ainda maior.
E os R$ 29 milhões?
Segundo levantamento publicado pelo Conexão Arcos, somente em 2023 e 2024, foram informados aproximadamente R$ 29 milhões em investimentos relacionados à Santa Casa, feitos pelo ex prefeito Claudenir José de Melo, O Baiano, incluindo conclusão do novo Bloco Cirúrgico, equipamentos, contratação de cirurgiões e realização de cirurgias.
É importante esclarecer: os R$ 29 milhões não representam exclusivamente o investimento na construção do Bloco Cirúrgico. O montante engloba diferentes ações e despesas relacionadas à estrutura hospitalar.
Ainda assim, é dinheiro público suficiente para justificar uma pergunta simples:
Qual foi o resultado efetivamente entregue à população?
Mais cirurgias, mas ainda não é suficiente
Os investimentos produziram resultados.
Em 2025, segundo dados divulgados pelo Jornal CCO, a Santa Casa realizou 660 cirurgias pelo SUS entre janeiro e 27 de agosto:
- 256 gerais;
- 149 ortopédicas;
- 30 vasculares;
- 191 ginecológicas e obstétricas;
- 19 de otorrinolaringologia;
- 15 oftalmológicas.
A expectativa era chegar a 992 cirurgias pelo SUS durante o ano.
Portanto, não seria correto afirmar que os investimentos não trouxeram resultados.
Trouxeram.
A questão é outra: por que a capacidade ainda não é suficiente para atender toda a demanda?
Três salas e uma nova necessidade de investimento
Apesar do novo Bloco Cirúrgico, a Santa Casa informou que trabalha com três salas cirúrgicas, sendo duas para procedimentos eletivos e uma para urgências.
Parte da área originalmente destinada ao bloco foi utilizada para o CTI durante a pandemia.
Agora, para ampliar a capacidade, novas salas são necessárias. Em 2025, a estrutura foi estimada em aproximadamente R$ 750 mil.
A situação levanta uma questão legítima:
depois de milhões investidos em estrutura e equipamentos, quanto ainda será necessário investir para que o hospital consiga utilizar plenamente sua capacidade cirúrgica?
A resposta não precisa envolver acusação de irregularidade. Trata-se de uma questão de planejamento, gestão e transparência.
Por que pacientes ainda saem de Arcos?
Nem todo procedimento pode ser realizado no município. O SUS é regionalizado e determinados tratamentos dependem de hospitais de referência com estrutura e profissionais especializados.
Portanto, um paciente ser encaminhado para outra cidade não significa, por si só, falha da Prefeitura ou da Santa Casa.
Mas a população tem o direito de saber quantos pacientes são encaminhados, para onde vão e por quais motivos.
Também é necessário conhecer os gastos com transporte, TFD e demais despesas decorrentes desses deslocamentos.
Em audiência na Câmara Municipal, a Secretaria de Saúde explicou que pacientes que necessitam de determinados procedimentos entram no processo de TFD — Tratamento Fora do Município, com posterior cadastro no SUS Fácil.
O problema não é existir encaminhamento.
O problema é não haver, para a população, uma visão clara sobre o tamanho dessa demanda e quais procedimentos poderiam eventualmente ser realizados em Arcos.
O próprio Estado reconheceu que ainda há caminho pela frente
Em agosto de 2025, o secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais, Fábio Baccheretti, esteve em Arcos e afirmou que as políticas Valora Minas e Opera Mais ainda não haviam chegado ao município “da forma que deveriam”.
Na ocasião, também destacou a necessidade de ampliar cirurgias ortopédicas e gerais no Bloco Cirúrgico.
A declaração reforça que o desafio não está apenas na existência física do bloco.
É preciso garantir financiamento, profissionais, equipamentos, habilitações e produção suficiente para que a estrutura funcione em sua capacidade máxima.
Um prefeito médico e uma cobrança ainda maior
Outro elemento merece ser considerado.
O atual prefeito de Arcos, Wellington Roque, é médico cardiologista e está há aproximadamente um ano e oito meses à frente da Prefeitura.
Sua formação profissional não o torna responsável individualmente pelos problemas da Santa Casa. O hospital possui administração própria, e parte significativa da política de saúde depende também dos governos estadual e federal.
Mas, como chefe do Executivo municipal, é legítimo cobrar da atual administração resultados, planejamento e articulação para ampliar o atendimento oferecido à população.
E a pergunta é direta:
Depois de aproximadamente um ano e oito meses de governo, o que mudou para o paciente que ainda precisa sair de Arcos para realizar um procedimento?
A cobrança não é contra o médico.
É dirigida ao gestor público.
E, justamente por sua formação na área da saúde, é razoável que a população espere dele uma atuação especialmente efetiva na busca por soluções.
O que a população precisa saber
Diante dos investimentos realizados, algumas respostas são fundamentais:
Quantos pacientes de Arcos foram encaminhados para outras cidades desde 2020?
Quais foram os municípios de destino?
Quais procedimentos ainda não são realizados em Arcos?
Quanto o município gastou com transporte e TFD?
Quantas cirurgias foram realizadas ano a ano?
Quanto ainda será necessário investir para ampliar o Bloco Cirúrgico?
E qual é a meta da atual administração para reduzir, quando tecnicamente possível, a necessidade de deslocamento dos pacientes?
Essas perguntas não representam acusação.
Representam fiscalização e interesse público.
Porque o sucesso de um investimento em saúde não deve ser medido apenas pelo valor anunciado ou pela obra entregue.
Deve ser medido também pela fila que diminuiu, pela cirurgia que passou a ser realizada, pelo paciente que deixou de viajar e pelo atendimento que chegou mais perto de casa.
Arcos já investiu milhões.
Agora, a população quer saber:
