Entre janeiro de 2025 e maio de 2026, mais de R$ 6 milhões teriam sido gastos com festas, eventos, shows, estruturas, locações, iluminação, sonorização e demais despesas ligadas ao entretenimento no município. Os valores citados nesta reportagem são baseados em documentos oficiais que acompanham esta matéria e que detalham contratos, empenhos e despesas públicas relacionadas aos eventos realizados no período.
A discussão que surge não é sobre a importância da cultura, do lazer ou das festas populares. Eventos movimentam a economia, geram renda e fazem parte da identidade cultural de qualquer cidade. O problema começa quando a realidade enfrentada diariamente pela população parece caminhar em direção oposta ao brilho dos palcos.
Enquanto milhões são direcionados para estruturas temporárias, moradores convivem com dificuldades permanentes.
O QUE PODERIA SER FEITO COM MAIS DE R$ 6 MILHÕES?
Quando os números saem do papel e são comparados com necessidades reais da população, o impacto impressiona.
Com mais de R$ 6 milhões, considerando casas populares avaliadas em cerca de R$ 90 mil cada, seria possível construir aproximadamente:
- 66 casas populares
Sessenta e seis famílias poderiam sair do aluguel, de áreas de risco ou de condições precárias de moradia para ter um teto digno.
Se o valor fosse aplicado em alimentação social, considerando cestas básicas no valor médio de R$ 220, poderiam ser adquiridas aproximadamente:
- 27.272 cestas básicas
Isso representa alimento na mesa de milhares de famílias em situação de vulnerabilidade.
Mas os números não param por aí.
Com esse valor, seria possível também:
- contratar médicos especialistas para reforçar unidades de saúde;
- ampliar atendimentos de ginecologia e obstetrícia;
- investir em mutirões de exames;
- reforçar equipes de limpeza urbana;
- ampliar ações de combate à dengue;
- recuperar ruas e bairros abandonados;
- investir em programas sociais permanentes;
- melhorar estruturas de atendimento básico à população.
DENGUE: A CRISE QUE VIROU ROTINA
Em meio aos gastos milionários com eventos, a população também enfrenta outra realidade preocupante: o avanço da dengue no município.
Bairros inteiros convivem diariamente com:
- terrenos sujos;
- mato alto;
- lixo acumulado;
- água parada;
- locais abandonados que podem servir de criadouros do mosquito.
Moradores relatam sensação de abandono enquanto campanhas educativas são feitas, mas problemas estruturais continuam visíveis pelas ruas da cidade.
A situação levanta questionamentos importantes:
Como combater a dengue de forma eficiente sem equipes suficientes de limpeza urbana? Como enfrentar uma emergência sanitária enquanto faltam ações permanentes de prevenção?
O combate à dengue não depende apenas da população. Exige planejamento, fiscalização, limpeza constante, investimento em estrutura e presença efetiva do poder público nos bairros.
E é exatamente nesse ponto que a revolta popular cresce.
A REALIDADE DAS UNIDADES DE SAÚDE
Enquanto estruturas milionárias são montadas para eventos temporários, moradores relatam dificuldades constantes para conseguir consultas médicas especializadas.
A ausência de ginecologistas e obstetras tem sido motivo frequente de reclamações. Mulheres aguardam atendimento, exames e acompanhamento especializado em um cenário que deveria ser prioridade absoluta dentro da saúde pública.
Além disso, faltam especialistas em diversas áreas nas unidades de saúde do município. Em muitos casos, pacientes precisam esperar meses por consultas ou buscar atendimento em outras cidades.
Em uma cidade que enfrenta problemas relacionados à dengue, a sobrecarga no sistema de saúde se torna ainda mais preocupante.
A pergunta que fica é inevitável:
Qual deveria ser a verdadeira prioridade da administração pública?
CIDADE SUJA, MATO ALTO E FALTA DE SERVIDORES
Outro problema enfrentado diariamente pela população é a situação da limpeza urbana.
Moradores reclamam de:
- mato alto;
- terrenos abandonados;
- lixo acumulado;
- ruas sem manutenção;
- sensação de abandono em diversos bairros.
Em meio ao aumento dos casos de dengue e às preocupações sanitárias, a falta de equipes suficientes para limpeza urbana chama atenção.
Enquanto isso, milhões aparecem para estruturas temporárias de festas.
O PESO DA PRIORIDADE POLÍTICA
A grande discussão levantada por esta reportagem não é contra festas populares. O povo merece cultura, lazer e entretenimento.
Mas também merece:
- saúde digna;
- médicos;
- combate sério à dengue;
- atendimento humanizado;
- cidade limpa;
- moradia;
- assistência social;
- respeito com o dinheiro público.
Quando uma cidade enfrenta dificuldades básicas e, ao mesmo tempo, despeja milhões em eventos, surge um debate inevitável sobre gestão, prioridades e responsabilidade administrativa.
Porque palco desmonta.
Show acaba.
Fogos se apagam.
Mas a falta de atendimento médico, o avanço da dengue, a ausência de moradia e o abandono social permanecem muito depois que o som das festas termina.
E é exatamente isso que a população começa a questionar cada vez mais.















