O recente aumento do ticket alimentação dos servidores da Câmara Municipal de Arcos para o valor de R$ 1.000,00 — um reajuste de 42,9%, absolutamente absurdo — escancara, mais uma vez, a forma distante e pouco transparente com que o Legislativo municipal tem conduzido decisões que impactam diretamente os cofres públicos. A medida foi adotada sem a apresentação de projeto em plenário, sem debate público e, principalmente, sem qualquer consulta à população que sustenta a estrutura da Casa.
O que causa ainda mais indignação é perceber que a troca da presidência da Câmara não representou mudança alguma na postura institucional. A gestão anterior, sob a presidência de Kátia Mateus, já demonstrava pouca preocupação em ouvir a sociedade. O atual presidente, Hernane Queijinho, segue exatamente o mesmo caminho, mantendo práticas que ignoram o interesse coletivo e reforçam a percepção de que as decisões são tomadas para beneficiar poucos, sem diálogo e sem transparência.
Enquanto servidores do Legislativo passam a receber um ticket alimentação equivalente – ou até superior – ao salário de muitos trabalhadores da iniciativa privada, o cidadão comum enfrenta dificuldades diárias com o alto custo de vida, impostos elevados e serviços públicos muitas vezes precários. Essa discrepância evidencia um abismo entre quem legisla e quem é afetado diretamente por essas decisões.
Além do aumento do benefício, chama atenção o uso recorrente de recursos públicos para despesas questionáveis. Estima-se que os gastos com diárias cheguem a cerca de R$ 12 mil por ano por servidor, sem que a população tenha clareza sobre os reais benefícios dessas viagens. Soma-se a isso a realização de cafés da tarde e outros eventos custeados com dinheiro público, em um cenário que exige responsabilidade e austeridade.
Essas práticas reforçam a sensação de privilégio dentro do Legislativo municipal. O dinheiro do contribuinte, que deveria ser administrado com rigor e respeito, acaba sendo utilizado para sustentar benefícios e regalias que não passam pelo crivo da sociedade. A ausência de debate em plenário e de mecanismos de participação popular torna o processo ainda mais grave.
Legislar sem ouvir a população não é apenas um erro político, mas um desrespeito direto à democracia. Tanto a gestão anterior quanto a atual demonstram que a mudança de nomes não foi acompanhada de mudança de postura. O resultado é a continuidade de decisões unilaterais, distantes da realidade do povo e alheias às verdadeiras prioridades do município.
Nos bastidores, a situação torna-se ainda mais grave com a revelação de que parte dos próprios vereadores se disse surpresa com o aumento do benefício. Os vereadores Jaiane Soares, Alex Didier e João Paulo, o Joãozinho, declararam que o reajuste não condiz com a realidade dos servidores públicos em geral. Basta um exemplo simples para demonstrar o descompasso: um aumento dessa magnitude próximo de 50% jamais poderia ser aplicado aos cerca de 1.580 servidores da Prefeitura Municipal, pois seria financeiramente inviável e irresponsável.
Nesse contexto, o presidente da Câmara, Hernane Queijinho, acaba dando um verdadeiro tiro no próprio pé. A portaria que autorizou o aumento foi assinada sem qualquer consulta prévia, sem debate em plenário e sem transparência. O mais alarmante é que, entre todos os parlamentares, apenas uma vereadora se manifestou publicamente a favor do aumento considerado absurdo: Leslie Mariana.
Diante desse cenário, cresce a percepção de que pode existir algum tipo de acordo entre a presidência da Casa e os servidores do Legislativo, envolto em nuvens negras e totalmente camuflado da população. A ausência de explicações claras, aliada ao silêncio institucional, só reforça a desconfiança. Talvez tenha chegado a hora de alguém dar o grito necessário e exigir que tudo seja devidamente apurado e trazido à luz.
Diante disso, é legítimo questionar: a quem serve a Câmara Municipal de Arcos? Certamente não à população, que segue sem voz enquanto vê seus recursos sendo utilizados de forma pouco responsável. Transparência, diálogo e respeito ao contribuinte não deveriam ser exceção, mas regra em qualquer gestão pública.
