A obra de recuperação da MG-170 no trecho entre a BR-354 e a região da CSN, Boca da Mata e Corumbá voltou ao centro das atenções após uma declaração do prefeito Wellington Roque em um programa de rádio local na segunda-feira, 28 de setembro. Segundo o prefeito, faltaria apenas um documento para que a obra pudesse avançar. Os registros oficiais do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), porém, mostram uma situação diferente: a licitação realizada para contratar a empresa responsável pela execução foi declarada fracassada em agosto e não há, no processo, contrato com uma empresa vencedora.
A concorrência eletrônica nº 2301520 000038/2026 foi aberta pelo DER-MG para executar obras de restauração, aumento de capacidade, melhoramento e pavimentação de 5,7 quilômetros da MG-170, entre a BR-354 e a AGRIMIG. O valor orçado foi de R$ 32.818.944,19.
A sessão da concorrência ocorreu em 25 de agosto de 2026. No dia seguinte, o próprio DER-MG publicou o aviso oficial de “Licitação Fracassada”. O processo disponibiliza a ata da sessão realizada em 25 de agosto e o aviso do resultado.
O que a declaração do prefeito precisa esclarecer
A afirmação feita por Wellington Roque no rádio cria uma dúvida objetiva.
Se, em 28 de setembro, faltava apenas um documento para o início da obra, qual empresa já havia sido contratada e qual documento ainda estava pendente?
Essa informação não aparece no processo licitatório consultado pelo Conexão Arcos.
Ao contrário, a página oficial do DER-MG identifica expressamente o procedimento como “Licitação Fracassada”. O mesmo processo não apresenta, entre os documentos disponibilizados pelo órgão, aviso de homologação em favor de uma empresa nem extrato de contrato para a execução da obra.
Em outras palavras, a documentação oficial disponível não confirma a existência de uma empresa vencedora aguardando apenas um documento para iniciar os trabalhos.
Segunda tentativa também terminou fracassada
A situação é ainda mais relevante porque não se trata da primeira tentativa de contratação.
Em 2025, o DER-MG realizou outro processo para o mesmo trecho. A concorrência nº 2301520 000026/2024 previa a elaboração do projeto executivo e a execução da restauração de aproximadamente 5,92 quilômetros da MG-170.
Aquela licitação também terminou oficialmente como fracassada.
Em 2026, o Governo de Minas apresentou uma nova concorrência, com mudanças no objeto e orçamento de R$ 32,8 milhões. O resultado, entretanto, voltou a ser negativo para a contratação: o processo também foi declarado fracassado.
A obra foi anunciada como conquista
A recuperação da estrada foi apresentada nos últimos anos como uma conquista para Arcos e recebeu a participação política do deputado estadual Antônio Carlos Arantes e do prefeito Wellington Roque nas articulações junto ao Governo de Minas.
Em 2025, foram divulgadas informações sobre a publicação de edital para recuperação do trecho. Em 2026, após novas reuniões com o DER-MG, foram anunciados recursos e a abertura de uma nova licitação.
Em abril deste ano, informações divulgadas após reunião no DER-MG apontavam para R$ 25,5 milhões garantidos e para a expectativa de publicação de um novo edital. Posteriormente, o DER publicou a concorrência com orçamento de R$ 32.818.944,19.
O edital oficial confirma que o empreendimento está incluído no PPAG e que o valor orçado para a contratação é de R$ 32,8 milhões.
Mas onde está a empresa?
Essa é a principal questão levantada pelos documentos.
Uma obra pública dessa dimensão precisa passar pelas etapas de licitação, julgamento, habilitação, homologação, contratação e, posteriormente, emissão dos instrumentos necessários para o início da execução.
No caso da MG-170, o processo de 2026 chegou a um resultado oficial diferente: “Licitação Fracassada”.
O próprio portal do DER mostra essa situação para a concorrência 000038/2026. Em processos do mesmo período que efetivamente resultaram em contratação, o órgão publicou documentos como “Aviso de Homologação” e “Extrato de Contrato”. Para a concorrência da MG-170, esses documentos não aparecem no processo consultado.
Declaração precisa ser explicada
A declaração de Wellington Roque não precisa ser interpretada antecipadamente como uma afirmação deliberadamente falsa.
Mas ela não é compatível, na forma como foi apresentada, com a situação documental encontrada no processo licitatório do DER-MG.
Por isso, o prefeito precisa esclarecer o que quis dizer ao afirmar que faltava apenas um documento.
As perguntas são objetivas:
Qual é o documento?
Qual é a empresa que já estaria responsável pela obra?
Existe contrato assinado?
Existe homologação da licitação?
Existe ordem de serviço?
Se existe empresa contratada, por que esses documentos não aparecem no processo público do DER-MG?
E os recursos?
Também permanece a necessidade de esclarecer a situação dos recursos anunciados para a obra.
O edital de 2026 estabeleceu orçamento de R$ 32,8 milhões, mas orçamento de licitação não é sinônimo de valor já pago. É necessário distinguir previsão orçamentária, empenho, liquidação e pagamento.
Também precisa ser esclarecido se os recursos anunciados anteriormente continuam reservados para o empreendimento depois do fracasso da licitação.
O que está documentado até agora
Até 29 de setembro de 2026, os documentos oficiais permitem afirmar:
- a obra está prevista para o trecho de 5,7 quilômetros da MG-170 entre a BR-354 e a AGRIMIG;
- o orçamento da concorrência de 2026 é de R$ 32.818.944,19;
- a sessão ocorreu em 25 de agosto;
- o DER-MG declarou a licitação fracassada em 26 de agosto;
- não foi localizado contrato de execução com empresa vencedora nesse processo;
- não foi localizado novo edital para a contratação da obra até esta data.
Portanto, a informação de que “faltava apenas um documento” precisa ser esclarecida pelo prefeito, porque a documentação oficial disponível aponta para uma situação mais ampla: a licitação que deveria escolher a empresa responsável pela obra terminou fracassada.
O Conexão Arcos encaminhará os questionamentos ao prefeito Wellington Roque, ao DER-MG e ao deputado Antônio Carlos Arantes para que informem se existe algum procedimento posterior à licitação que ainda não tenha sido disponibilizado no portal oficial.
Se houver um novo documento, contrato ou procedimento administrativo que altere essa situação, ele deverá ser considerado na atualização da reportagem.
