Com uma das maiores arrecadações da história do município, a Prefeitura pretende financiar investimentos na saúde por meio de empréstimo, enquanto recursos de emendas parlamentares seguem sem utilização integral.
A matemática da gestão pública de Arcos levanta uma pergunta que muitos contribuintes já começam a fazer: como um município com arrecadação próxima de R$ 1 bilhão ao longo de um mandato ainda precisa recorrer a empréstimos para financiar investimentos na saúde?
Os números impressionam. A previsão orçamentária para 2026 é de aproximadamente R$ 237,5 milhões. Dividido pelos 12 meses do ano, isso representa uma entrada média de quase R$ 20 milhões por mês nos cofres municipais.
Em uma projeção de quatro anos, a arrecadação do município pode alcançar cerca de R$ 950 milhões. Se for considerada a arrecadação efetiva registrada em 2025, superior à previsão inicial, esse valor pode até ultrapassar R$ 985 milhões.
Diante desse cenário, surge um questionamento legítimo: por que a Prefeitura pretende contratar um empréstimo superior a R$ 4,5 milhões para investimentos na saúde?
A dúvida ganha ainda mais força quando se observa que a área da saúde recebeu diversas emendas parlamentares nos últimos anos. Segundo informações divulgadas pela própria administração municipal, parte desses recursos ainda não teria sido utilizada devido a processos licitatórios que permanecem em andamento.
Se existem recursos destinados à saúde aguardando execução, por que buscar uma nova dívida?
Outro dado que chama atenção é o volume de recursos destinados a eventos, shows e apresentações artísticas. Levantamentos apontam que aproximadamente R$ 7 milhões já foram empregados nesse tipo de contratação até maio de 2026.
Naturalmente, cultura, lazer e entretenimento possuem importância para a população e movimentam a economia local. Entretanto, quando se compara esse montante com o valor do empréstimo pretendido para a saúde, a discussão sobre prioridades torna-se inevitável.
A população tem o direito de compreender:
• Quanto das emendas parlamentares destinadas à saúde ainda está disponível?
• Quais licitações impedem a utilização desses recursos?
• Qual a urgência que justifica a contratação de um empréstimo?
• Qual será o custo final dessa operação financeira para os cofres públicos?
• Existem outras alternativas antes do endividamento?
A questão central não é apenas o valor do empréstimo. O que chama a atenção é o contexto em que ele surge.
Em uma cidade que arrecada perto de R$ 20 milhões por mês e que pode movimentar quase R$ 1 bilhão durante um mandato, é natural que o cidadão queira entender por que a administração considera necessário assumir uma nova obrigação financeira para uma área que já recebeu recursos externos e cuja execução, segundo a própria Prefeitura, enfrenta entraves burocráticos.
Mais do que respostas técnicas, a população espera transparência.
Porque quando os números não parecem conversar entre si, o questionamento deixa de ser político e passa a ser uma obrigação do contribuinte.
